Diário do bunker - Dia #9
Acordei e foi aí que começaram as alucinações.
Fui à casa de banho, abri a tampa da retrete e lá dentro estava uma barata gigante. Olhou para mim e disse:
"tão sóce? Kéke tu querres? Na se bate antes de entrrar? Deslarrgame da mão sóce!" e cuspiu-me no olho.
A minha mente está a dizer-me qualquer coisa, mas porque razão seria na forma de uma barata gigante com sotaque charroco, não sei.
Durante a noite, os cortinados tentaram matar-me. Tinham facas e estavam ali à espera do momento certo para me trinchar a moleira. Mas levantei-me de fininho e fui beber um copo de água, e foi aí que vi um anão a cortar cenouras e percebi que se calhar estou a ver coisas. Foquei-me no trabalho mas é difícil. Nada parece fazer sentido. Os clientes pedem coisas contraditórias e esforço-me para manter a calma. Arrisco e saio à rua para desanuviar. 
Vejo uma família de chocos pardos a fazer um pic-nic no parque. Toalhinha no chão e cestinho. Parece um quadro do Norman Rockwell mas as pessoas têm tentáculos na cara. 
Estremeço e fujo a sete pés. Tenho mesmo sete pés e consigo correr depressa como o vento. Estou a galope. O meu corno mágico no meio da testa brilha ao sol e o meu cabelo roxo ondula na brisa.
Sinto tremores. Uma voz fala comigo mas não vejo ninguém. Mas vai ficando mais forte e os tremores também.
Luz! Luz intensa! Confusão!
Percebo que tenho os olhos abertos e ramelosos e me estou a babar, sentado na cama.
A Susana, a tocar-me no ombro e a perguntar-me:
"Bom dia 'mor! Queres o pequeno-almoço?"
Sorrio. 
Foi só um sonho.
"Sim, quero o pequeno-almoço 😅".

Diário do bunker - Dia #8
Acordei a pensar que nunca visitei a Amareleja. Não sei se vale a pena visitar a Amareleja, mas se calhar já lá devia ter ido... Agora é tarde. A Amareleja é agora uma cratera fumegante, com 25Km2 de diâmetro. Nem as baratas sobreviveram.
Há muitos sítios do mundo onde nunca fui, e agora é pouco provável que consiga.
Nunca fui ao Botswana, nem a Cancum, nem a Roma. Também nunca fui a Moscovo, Nova Iorque ou Estarreja.
São tudo sítios que já não existem, onde as pessoas morreram. São as pessoas que fazem os sítios, e sem pessoas esses sítios são só sítios.
Espreito pela janela e vejo uma lagarta-debulhadora de 52 metros (sim, já cresceram ainda mais) a engolir um autocarro que ia vazio, porque nestes dias ninguém anda de autocarro.
Na internet leio que nos túneis do Metro em Lisboa, existem largartas-debulhadoras com 100 metros, e que comeram todas as composições.
O Mundo mudou e nós também estamos a mudar. 
Dou com a Susana a escrevinhar listas de compras do supermercado na parede ao lado da retrete, enquanto cantarola o "Mein Herz Brennt" de Rammstein. Acho que começou a perder o juízo.
A Sofia corre em círculos no quarto enquanto ouve K-Pop. O concerto de BTS em Barcelona foi cancelado (já fui a Barcelona, mas agora já não existe), por isso chora todo o dia e toda noite, e corre em círculos.
Eu também estou a perder o juízo... Começou-me a crescer um corno no meio da testa e o cabelo está a ficar roxo. Acho que chamam a isto "Cabin Fever".
De repente apetece-me comer erva. Ou palha.

Diário do bunker - Dia #7
Ao sétimo dia, não se fez luz.
O céu está carregado e ameaça chover. Que venha um dilúvio que lave esta terra cheia de impurezas.
Soubemos por amigos que há um velho pescador a construir uma arca-traineira nas docas. Tem 325 metros de comprimento, 100 de largura, e é feita de madeira retirada de paletes de caixas de banana da Madeira. Em vez de animais, o velho pescador irá encher a embarcação de papel higiénico e zarpar rumo ao Ártico.
Se calhar ele está certo, e nós errados.
Venha um dilúvio. Que se abram os céus. Que se lave o mundo.
Este é o sétimo dia que estamos em casa. Incrivelmente, a Susana ainda não se esbardalhou. Anda com pezinhos de lã para não tropeçar em nada, e com cuidado redobrado cada vez que pega em coisas afiadas. Todo o cuidado é pouco.
Estamos os dois a trabalhar, a tentar fazer as nossas rotinas normais. Por outro lado, é bom poder andar de pijama o dia todo e não ser criticado por isso.
Lá fora, foi cancelada a Eurovisão, por isso hoje irei para a janela bater palmas.
A vida continua.


Diário do bunker - Dia #6
Tudo fechado. Tudo deserto. Parece Pripyat. 
Ambas cidades-fantasma por causa de um inimigo letal, silencioso, invisível. 
Infelizmente, no nosso caso não temos contadores Roentgen que detectem a presença do vírus no ar.
A ameaça pode ser global, mas é no micro-cosmos que sentimos os efeitos.
Um vizinho, meio enlouquecido após 3 dias em casa sem jogos de futebol e com o droning incessante da CMTV a moer-lhe o fraco espírito, decidiu ir para a varanda, todo nú, gritar saudações salazaristas da Mocidade Portuguesa enquanto defecava num vaso de gerberas amarelas (do Sul, não do Norte). Escorregou numa poça de urina, e mergulhou para a morte que não chegou imediatamente. Demorou 6 horas a morrer, entre gemidos horríveis e pequenos versículos desgarrados do hino da Mocidade Portuguesa. Finalmente, às 2 da manhã, veio o silêncio.
O seu corpo quebrado ainda ali está em baixo, e nem os cãos lhe tocam.
De resto, fazemos o possível para que a vida corra normalmente. A Sofia ganhou gosto pela leitura, e depois d'"A Metamorfose" de Kafka começou a ler a Guerra dos Tronos. Está na hora de aprender algumas realidades...
Um dia de cada vez...


Diário do bunker - Dia #5
Hoje tivemos de ir à farmácia e não foi agradável.
O véu da civilização é fino, e basta a mais pequena brisa para o deitar abaixo, e mostrar a raça humana por aquilo que é. Que nunca deixou de ser. Trogloditas egoístas e xenófobos.
A pequena rotunda ao lado da farmácia foi transformada numa Cúpula do Trovão. Dois entram, um sai. O vencedor teria direito a comprar, a um preço astronómico, um par de máscaras e uma garrafinha de desinfetante. Os restos do vencido seriam deitados aos cães. Azar...
Não tivemos de lutar. O nosso avio não era relacionado com o vírus, mas a lista de concorrentes à Cúpula do Trovão tinha já 7 páginas A4 de alto a baixo. Todos dispostos a morrer por um par de máscaras e uma garrafinha de desinfetante.
Os farmacêuticos usam armaduras anti-motim e falam por megafone com uma voz serena. Ninguém se pode aproximar deles. São figuras sagradas. Curadores Guerreiros. Profetas.
Voltámos para casa. Não encontrámos resistência. Depois da chacina de ontem, os Cuspidores procuram outras paragens. Está tudo relativamente calmo por aqui...
Ao jantar comemos bacalhau com grão. Uma memória de dias mais felizes, antes do isolamento. Antes do colapso da sociedade. Antes dos zepellins com a vozinha estridente da Graça Freitas a cortar o ar fresco da manhã.
Hoje não estremeci, mas se calhar devia.


Diário do bunker - Dia #4
Sangue.
Fogo.
Morte.
Da segurança do bunker vimos o embate furioso entre clans de Homens-Toupeira e Cuspidores.
Sem vencedores, sem vencidos. Apenas mortos.
Às montanhas de lixo que são o domínio das temíveis lagartas-debulhadoras, somam-se agora montanhas de corpos mutilados. Os que ainda se agarram à vida gemem, gritam, enquanto patrulhas blindadas da Proteção Civil percorrem os campos de morte com aspersores alcoólicos industriais, carregados de desinfetante alcóolico-corrosivo. As montanhas de corpos dão lugar a pilhas de gosma. As pilhas de gosma transformam-se num líquido viscoso que escorre pelos passeios até aos esgotos.
Sem vencedores. Sem vencidos. Apenas morte informe.
Os avisos estridentes da DGS ecoam pela cidade, através de megafones instalados em zepelins. Repetem o mantra tortuoso de Graça Freitas "Está Tudo Bem! O Vírus Está Controlado E Portugal Está Preparado! Não Entre em Pânico!". Os zepelins são drones em voo autónomo e a mensagem irá repetir-se mesmo quando estivermos todos mortos.
"Está Tudo Bem!"... "Está tudo bem"..."Está Tudo Bem!"...



Diário do bunker - Dia #3
O dia correu sem eventos dignos de nota, exceto o homem-toupeira que foi engolido por uma lagarta-debulhadora, uma espécie de lagartas que aparentemente sofreu mutações e agora vive escondida nas montanhas de lixo doméstico que se encontram por toda a cidade. Esta era das grandes... 15 metros pelo menos, e engoliu o homem-toupeira de uma vez só.
Ao fim do dia saí do bunker para ir para a clinica. 
Quando regressei, já perto das 23h, foi quando os vi.
Eram três.  Cuspidores. E parecia que estavam à nossa espera.
O primeiro olhou-me à distância e sorriu. Um sorriso cheio de saliva pestilenta a escorrer pelo queixo, pelo kispo, pelos calções, pelas meias brancas até ao joelho, pelos ténis adidas brancos, e fazendo uma poça de cuspe no chão. Desatou a correr na minha direção, numa coreografia descoordenada. Não estremeci. Não.
Num instante acabou. A nuvem de desinfetante alcoólico atingiu-o com a força de um comboio de mercadorias. Os olhos derreteram nas órbitas, a língua caiu de podre e as pernas perderam a força e caiu no chão... inerte. 
"Um já está", pensei.
O segundo cuspidor, enraivecido e agora o alfa da matilha, carregou contra nós. A Susana, de luvas amarelas da loiça nas mãos, saca da mala uma faca de trinchar que recebeu da tia quando nos casámos. Aço como deve ser, tão afiada como no dia que foi feita.
Trinchou o crânio do cuspidor-alfa até ao pescoço, como se fosse um ananás. 
Um grito abafado, um gemido patético e depois nada.
O terceiro cuspidor, claramente o mais fraco da matilha, olhou para os destroços dos seus compadres, pensou duas vezes e fugiu. Ao atravessar a estrada, aproximou-se demasiado da montanha de lixo. Foi o seu erro. Os cuspidores não são muito inteligentes.
A lagarta-debulhadora fez mais uma vítima. O cuspidor juntou-se ao homem-toupeira no seu estômago cavernoso, onde levará 52 dias a ser digerido.
Voltámos para casa. A Sofia já dormia.
Foi um bom dia, apesar de tudo.


Diário do bunker - Dia #2
O céu está limpo, sem nuvens nem colunas de fumo.
Não se vê ninguém na rua, a não ser bandos ocasionais de ciclistas uando fatos hazmat em vez da tradicional fatiota de lycra. Pedalam sempre até ficarem brancos. Um outro felizmente caiu, e os outros vão para a puta que os pariu.
Não há recolha de lixo. As ruas estão cheias de porcaria e já vi um ou dois homens-toupeira a tentar encontrar comida no meio de montanhas de desperdício.
O último Polícia que vi era o pé que o cão ontem levava na boca. Reconheci-o pela tatuagem da Marinha no gémeo. Era meu vizinho...
O abastecimento dos supermercados é feito à moda do Mad Max. Colunas de camiões blindados assolados por Opel Corsas artilhados com óxido mitroso, cheios de mitras que tentam roubar a carga. Um espetou-se num muro e ficou desfeito. Os cães vão comer bem esta noite...
Estremeço...


Diário do bunker - Dia #1
Acordámos com o som de explosões e gente a gritar. Gritos, gemidos, e depois silêncio. 
Pela pequena janela da escotilha do nosso abrigo, não se vê muito. Apenas colunas de fumo mais altas que os edifícios da zona. O céu está coberto de cinzento e vejo passar um cão com um pé humano na boca. Estremeço.
À distância, ouve-se algo indistinto. Talvez gritos... Pneus a chiar... Metal a moer metal. Talvez uma escaramuça no parque de estacionamento do Aldi,onde salteadores fazem emboscadas a almas descuidadas que se aventuram à procura de um rolo perdido de papel higiénico ou de uma embalagem fora de prazo de arroz de pato congelado.
Estremeço.
Hoje não vamos sair do abrigo. Temos tudo o que precisamos para os próximos dias. 
#bunkerlife @pedrodaniel
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